Nossa estética também é política: corpos, territórios e o exercício de constelar
Como nossas estéticas, corpos e histórias também constroem caminhos políticos? Neste texto, reflito sobre corpo-território, participação política e bem viver, atravessando arte, cultura e educação para pensar como podemos fabular presentes e futuros e, sobretudo, constelar: reconhecer nossas potências, fortalecer umas às outras e construir novos caminhos coletivamente.
FUTUROS ECONOMIA CIRCULAR
Amanda Diva
9/30/20263 min read


Saudações Família, há algum tempo venho pensando sobre os caminhos que me fizeram compreender o meu próprio corpo como um corpo político. E quando falo de política, não estou falando apenas de partidos, eleições ou dos espaços institucionais onde nos estamos acostumadas a enxergá-la.
Estou falando também das decisões que atravessam nossa existência, dos lugares que podemos ou não ocupar, da forma como nossos corpos são vistos e lidos e, principalmente, da possibilidade de participarmos da construção dos caminhos que interferem diretamente nas nossas vidas.
Para mim, a estética faz parte dessa construção.
Como mulher negra, artista, pesquisadora e trabalhadora da cultura e da educação, aprendi através da minha própria trajetória que cabelo, roupa, adornos, gestos e formas de ocupar o mundo nunca estiveram completamente separados das disputas que acontecem na sociedade.
Quando compreendemos nossos corpos como políticos
Nossos corpos carregam histórias.
Carregam territórios, memórias, conhecimentos, apagamentos, retomadas e também aquilo que ainda estamos tentando construir.
Por isso, quando falamos que nossa estética também é política, não estamos reduzindo a estética a uma ferramenta política. Estamos ampliando a nossa compreensão sobre ela.
É entender que a maneira como nos reconhecemos e nos apresentamos ao mundo também pode produzir pertencimento, recuperar narrativas e questionar lugares que historicamente foram determinados para nós.
E essa reflexão ganha ainda mais importância quando pensamos nas mulheres negras.
Somos diversas. Temos diferentes trajetórias, territórios, profissões, crenças, gerações e formas de compreender o mundo. Não precisamos ser iguais para construir coletivamente.
Talvez uma das nossas maiores potências esteja justamente em descobrir como constelar essas diferenças.
Constelar para construir presentes e futuros
Tenho pensado bastante na palavra constelar, uma ideia que tem chegado até mim através de Neon Cunha, mulher negra, ameríndia, transgênera e ativista independente. Em suas reflexões sobre Neon fala dessa dimensão de constelação, de uma potência que não se constrói sozinha, mas a partir das muitas, muitos que vieram antes, das que caminham conosco e daquelas que já estão projetando outros futuros.
E é essa imagem que tem me atravessado: como podemos constelar?
Para mim, constelar não significa que todas precisamos ocupar o mesmo lugar ou brilhar da mesma maneira. É justamente o contrário. É poder olhar para si, reconhecer a própria luz e, ao mesmo tempo, contribuir para que outra pessoa também consiga se acender. Quando uma se acende e ajuda a acender a outra, criamos um movimento que não concentra a potência em uma única pessoa, faz circular.
É sobre podermos brilhar juntas, cada uma no seu lugar, com seus desejos, histórias, conhecimentos e possibilidades.
Talvez seja também uma forma de pensar o bem viver: construir relações em que a potência de uma não precise significar o apagamento da outra, do outro.
E aí arte, cultura, educação, estética, memória, território e política também formam essa constelação. Diferentes pontos que, quando estabelecem relações entre si, nos permitem fabular presentes e futuros que talvez ainda não consigamos enxergar sozinhas
Uma roda para pensar juntas
É a partir dessas inquietações que eu, Diva Green, e Lucia Udemezue abrimos a roda de diálogo “Nossa estética também é política!”.
Somos duas mulheres negras que atuam e pesquisam nos campos da arte, cultura e educação, atravessadas por experiências e caminhos diferentes. E justamente por isso nos interessa o encontro.
Não queremos construir uma conversa baseada em respostas prontas.
Queremos fomentar um espaço de acolhimento, escuta e troca para olhar para o momento que estamos vivendo e pensar nossos corpos políticos, nossas estéticas, histórias e territórios.
Às vésperas das eleições, essa reflexão também passa pela nossa participação política. Pelo voto, sim, mas não somente por ele. Passa por entender o que acontece ao nosso redor, acompanhar as decisões que interferem nas nossas vidas, ocupar espaços de diálogo, construir redes, fortalecer nossos territórios e reconhecer que aquilo que produzimos também é conhecimento.
Tenho aprendido muito e quero aprender mais.
Que política queremos construir a partir dos lugares que ocupamos?
Talvez não exista uma resposta única.
Mas podemos nos encontrar para pensar.
Podemos fabular.
Podemos fomentar o bem viver.
E podemos constelar novos caminhos possíveis.
Roda de Diálogo — Nossa estética também é política!
Diva Green e Lucia Udemezue
Quinta-feira, 01/10 | 17h às 18h30
Ateliê Orí — Rua Barão de Itapetininga, 273
Centro / República — São Paulo
Diva Green | Orí Afrofuturo
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