Mas afinal, o que é a Orí?

A Orí nasce do trançar, mas não termina no cabelo. Entre memória, ancestralidade, pesquisa e criação, este texto percorre os caminhos que transformaram um ofício em um território de conhecimento, beleza e novas possibilidades.

PROCESSOS E CRIAÇOES

Amanda Diva

9/8/20264 min read

Quando me perguntam o que é a Orí, eu percebo que a resposta não cabe em uma única definição.

A Orí é uma organização que conecta diferentes eixos: moda, beleza, cultura, educação, pesquisa e ancestralidades. Mas, antes de tudo isso, ela nasce do meu ofício de trançadeira.

Comecei a trançar aos 14 anos e, de lá para cá, não parei mais. Fui aprendendo, aprimorando técnicas, experimentando, ensinando, passando por diferentes processos e construindo meu próprio caminho dentro desse ofício.

Ao longo dessa trajetória, trabalhei em salões, gerenciei espaços, tive meu próprio salão, formei profissionais e construí minha própria equipe. Foram muitos momentos, mudanças e recomeços. E, em todos eles, estive na linha de frente da gestão do meu próprio negócio.

Falo disso com orgulho, mas também reconhecendo o tamanho desse desafio. Não dá para romantizar o que significa criar, produzir, gerir, pesquisar e, ao mesmo tempo, encontrar maneiras de fazer um negócio continuar existindo.

Mas foi justamente dentro dessa trajetória que comecei a perceber que aquele trançado estava me convidando a acessar outros portais.

Quando o trançado deixa de ser somente técnica

Durante muito tempo, o salão foi um espaço importante para o desenvolvimento do meu trabalho. Mas chegou um momento em que aquele formato já não dava conta de todas as perguntas que começaram a surgir.

Eu queria pesquisar mais.

Queria entender aquilo que existia antes da técnica.

Queria compreender as histórias presentes nos cabelos, nos penteados, nos adornos, nos gestos e nas formas de construir beleza.

Foi quando comecei a perceber que o trançado poderia me levar para portais que transcendem o lugar da beleza e da estética entendidas apenas como aparência.

Esses portais me aproximaram da história, da memória, do pertencimento, das simbologias e dos fundamentos.

E essa mudança de perspectiva também transformou a maneira como passei a compreender meu próprio trabalho.

Porque um penteado comunica.

Uma roupa comunica.

Um adorno comunica.

Um corpo comunica.

Mas existe algo anterior àquilo que colocamos para fora: a intenção que construímos por dentro.

Foi nesse lugar que comecei a compreender a beleza não somente como aquilo que vemos no espelho, mas como parte de um processo muito mais profundo de reconhecimento.

A cabeça que nos guia

O próprio nome Orí carrega uma dimensão importante dessa construção.

Pensar a cabeça que nos guia também me faz pensar sobre aquilo que colocamos dentro dela.

Quais histórias conhecemos sobre nós?

Quais imagens nos alimentam?

Quais referências construíram a maneira como nos enxergamos?

Quais conhecimentos carregamos?

Por isso, quando penso a Orí, não penso somente cabelo.

Penso informação, memória, musicalidade, imagens, cheiros, sabores, texturas, encontros e experiências.

Penso na possibilidade de alimentar nossa cabeça com referências que fortaleçam aquilo que somos e aquilo que estamos construindo.

É nesse processo que a Orí transborda a estética capilar e passa a olhar também para o corpo inteiro como corpo-território.

Um território que carrega história.

Um território que guarda memória.

Um território que se comunica.

Um território que também pode criar novas possibilidades de existência.

Então, o que é a Orí hoje?

Hoje, a Orí conecta moda, beleza, cultura, educação, pesquisa e ancestralidades.

E esses eixos não existem separados.

Eles se encontram o tempo inteiro.

Na moda e na beleza, isso acontece através dos cabelos, das perucas, das Mayakas, dos adornos, da caracterização e das peças autorais que produzo.

Na educação, esse conhecimento se transforma em cursos, oficinas, formações e experiências estéticas.

Na pesquisa, continuo buscando histórias, memórias, referências, técnicas, simbologias e fundamentos que nos ajudem a compreender de onde determinadas estéticas vêm, o que elas comunicam e quais possibilidades podem abrir no presente.

E a ancestralidade atravessa tudo isso não como algo parado no passado, mas como conhecimento que continua se movimentando, sendo pesquisado, experimentado e recriado.

Talvez seja justamente aí que esteja a essência da Orí.

Ela nasceu do cabelo, mas nunca foi somente sobre cabelo.

Nasceu do meu ofício de trançadeira, mas o próprio ofício foi abrindo caminhos para outras linguagens, pesquisas e possibilidades de criação.

Pesquisa que vira criação

Hoje, um dos movimentos que mais me interessam dentro da Orí é justamente esse:

transformar pesquisa em criação.

Transformar aquilo que pesquiso em uma peruca, um adorno, um penteado, uma imagem, uma experiência, uma oficina, uma conversa ou uma nova pergunta.

Depois, transformar essa criação em conhecimento compartilhado.

E permitir que esse conhecimento compartilhado se transforme novamente quando encontra outras pessoas.

É um movimento contínuo.

Pesquisa que se transforma em criação.
Criação que se transforma em conhecimento compartilhado.
Conhecimento compartilhado que se transforma em experiência.
E experiências que podem gerar transformação.

É por isso que talvez não exista uma resposta curta para a pergunta “o que é a Orí?”.

A Orí é uma organização, mas também é um espaço de pesquisa, criação e experimentação.

É moda e beleza, mas também memória.

É produto, mas também conhecimento.

É estética, mas também educação.

É ancestralidade, mas também construção de futuro.

E continua se movimentando.

Porque, assim como uma trança, cada novo fio que chega pode se conectar aos anteriores e ampliar aquilo que estamos construindo.

Orí

trançando histórias através da moda, beleza, cultura e transformação.