Beleza não é vazia: corpo, estética e autovalor
Beleza, autoestima e autovalor estão profundamente conectados. Mas reconhecer o próprio valor não é um lugar onde simplesmente chegamos: é uma construção diária. Neste texto, compartilho algumas reflexões sobre corpo, estética, ancestralidade e os caminhos que podemos construir para retornar a nós mesmas. Continue a leitura e atravesse comigo esse Portal de Beleza.
MEMÓRIAS E ANCESTRALIDADES
Amanda Diva
9/4/20264 min read


Quando falamos de beleza, também estamos falando de autoestima. Mas, para mim, essa conversa precisa ir além da busca por valorização externa. Existe algo anterior e ainda mais profundo: o autovalor.
Reconhecer o próprio valor é construir um olhar para esse corpo-território e para tudo o que ele carrega. É olhar para a nossa história, para os caminhos percorridos, para aquilo que atravessamos e para tudo o que foi necessário movimentar para chegarmos até aqui.
Mas é importante dizer: essa não é uma movimentação fácil. É uma construção diária.
Vivemos em uma sociedade que, estruturalmente, também produz condições de desvalorização. Existem experiências, padrões, imagens, discursos e situações que diariamente podem interferir na maneira como nos percebemos, fazendo com que nem sempre seja possível sustentar esse lugar de reconhecimento, amor e bem viver.
Por isso, falar de autovalor não significa dizer que precisamos estar fortes, seguros ou inteiros o tempo todo.Há dias em que conseguimos nos reconhecer. Há outros em que alguma coisa nos desestrutura. Há momentos em que avançamos e outros em que precisamos apenas lembrar de quem somos.
Talvez o grande desafio esteja justamente aí: continuar construindo caminhos de retorno e continuidade para nós mesmos.
A estética também pode ajudar a virar uma chave
É nesse processo que penso a estética como uma possibilidade de movimento.
Ela não resolve tudo. Não apaga as estruturas que nos atravessam e tampouco substitui os processos internos que precisamos viver. Mas pode ser uma ferramenta para movimentar alguma coisa.
Em determinados momentos, transformar a nossa imagem pode nos ajudar a virar uma chave a partir daquilo que desejamos comunicar.
Faz sentido usar essa trança hoje? Faz sentido usar dread? Faz sentido raspar o cabelo? Colocar uma peruca? Mudar a cor? Experimentar outro corte?
Essas escolhas podem nascer simplesmente do desejo de mudar. E isso já é legítimo, mas elas também podem nascer de uma escuta sensível.
Uma escuta sobre aquilo que estamos vivendo, aquilo de que precisamos, o que desejamos comunicar e as memórias que queremos acessar.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “o que fica bonito em mim?”, mas também:
O que faz sentido para mim agora?
O que quero comunicar?
O que quero movimentar?
Como desejo me perceber neste momento da minha vida?
Toda estética comunica algo, e quando ela encontra intenção pode deixar de ocupar somente o lugar da aparência para se tornar linguagem.
Corpo, memória e ancestralidade
Quando falamos sobre essa escuta, também falamos de memória.
Nossa relação com a estética não começa em nós. Nossos corpos carregam histórias, referências, conhecimentos, gestos e formas de construir beleza que atravessam gerações.
Acredito que existe uma relação profunda entre estética e ancestralidade.
A ancestralidade pode ser um lugar de memória, mas também de acolhimento. Um lugar ao qual podemos recorrer para lembrar que não começamos agora, que existem histórias anteriores às nossas e que nossos corpos também são continuidade.
Nesse sentido, escolher uma trança, dread, um penteado, um adorno, uma textura ou determinada forma de construir a própria imagem pode também estabelecer uma conexão com essas memórias.
Não significa que toda escolha estética precise carregar uma grande justificativa ancestral. Às vezes, queremos apenas mudar, experimentar, brincar, criar outra imagem de nós mesmas. E isso também faz parte.
O importante para mim foi compreender que temos a possibilidade de construir essas escolhas com mais consciência e escuta.


Beleza de dentro para fora
Quando falo em beleza de dentro para fora, estou falando justamente de preencher essas escolhas de sentido.
É permitir que aquilo que colocamos para fora possa dialogar com aquilo que estamos construindo por dentro.
O cabelo pode ser linguagem. A roupa pode ser linguagem. Uma trança pode ser linguagem. Uma cabeça raspada, uma cor, maquiagem, um adorno, um corte: todos podem participar da construção da imagem que escolhemos apresentar ao mundo.
Mas nenhuma dessas escolhas determina o nosso valor.
Nosso valor existe antes delas.
E talvez seja justamente por isso que podemos utilizá-las com liberdade: não para provar o nosso valor, mas para comunicar, experimentar, transformar e potencializar aquilo que desejamos expressar.
Uma beleza preenchida
A beleza em que acredito não é vazia.
Ela é preenchida de histórias.
De memória.
De escolhas.
De experiências.
De movimentos.
De ancestralidade.
É uma beleza capaz de transbordar em construções e transformações que não reverberam somente em nós, mas também no nosso entorno.
Quando nos percebemos com mais respeito, podemos transformar também a maneira como olhamos para outras pessoas. Quando reconhecemos nossos processos, podemos aprender a respeitar processos diferentes dos nossos. Quando compreendemos que existem muitas formas de existir e expressar beleza, ampliamos também o nosso imaginário.
É nesse lugar que beleza e autoestima se encontram com algo ainda mais profundo: autovalor.
Não como uma conquista definitiva.
Não como um lugar em que chegamos e permanecemos para sempre.
Mas como uma construção cotidiana.
Em alguns dias, talvez consigamos sustentá-la com mais força. Em outros, talvez seja necessário retornar, lembrar, reconstruir.
E nesses retornos, nossa estética, nossa memória e nossa ancestralidade também podem ser caminhos de reconexão.
Talvez um dos nossos grandes portais de beleza esteja justamente aí:
não apenas transformar aquilo que vemos no espelho, mas construir, diariamente, caminhos para reconhecer aquilo que existe em nós.
— Diva


Diva Green | Orí Afrofuturo
O cabelo é travessia: conecta ancestralidades, atravessa territórios e continua histórias.
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